Nuvem¶
Esta página reúne o que é computação em nuvem, como contratar, quanto custa, como se organizam identidade, computação, armazenamento, rede, monitoração e segurança — sempre pensando em conceitos que existem em qualquer provedor (AWS, Azure, Google Cloud, Oracle, Huawei, Alibaba, IBM). Os nomes dos produtos mudam; a ideia por trás deles, não. Para detalhes específicos da AWS, veja AWS.
O que é computação em nuvem¶
A definição mais usada vem do NIST (órgão de padrões dos EUA): computação em nuvem é um modelo que permite acesso via rede, de forma conveniente e sob demanda, a um conjunto compartilhado de recursos configuráveis (redes, servidores, armazenamento, aplicações, serviços) que podem ser provisionados e liberados rapidamente, com o mínimo de esforço de gerenciamento.
Definição: nuvem (NIST)
Recursos de computação consumidos como serviço: o cliente pede (por console web, linha de comando ou API), usa e paga pelo que consumiu, sem comprar nem operar o hardware. Por trás, o provedor mantém datacenters em vários países, com recursos compartilhados e virtualizados.
Despesa de capital x despesa operacional¶
Montar um datacenter próprio custa muito mais do que servidores: imóvel, energia, refrigeração, redundância (energia, links, armazenamento), segurança física e de rede, mobiliário e equipe especializada. É o custo total de propriedade (TCO). A nuvem troca esse investimento por consumo.
Definição: CapEx x OpEx
CapEx (Capital Expenditures): investimento antecipado em ativos (comprar servidores, montar datacenter). OpEx (Operational Expenditures): gasto recorrente conforme o uso (aluguel, assinatura, consumo). Nuvem pública desloca o gasto de CapEx para OpEx — a analogia é a água e a energia: consumimos sem operar estação de tratamento nem usina.
Vantagens¶
| Vantagem | O que significa |
|---|---|
| Alcance | Replicar a aplicação para outras regiões/continentes em minutos, ou usar cache distribuído, para ficar perto do usuário |
| Agilidade | Provisionar recursos em minutos (console ou código), aproveitando janelas de oportunidade |
| Economia | Troca custo fixo por variável; o provedor repõe tecnologia obsoleta sem custo extra ao cliente |
| Elasticidade | Aumentar ou reduzir a infraestrutura conforme a demanda real (automática, por evento ou programada), em vez de dimensionar para o pico teórico |
Tipos de implantação¶
| Tipo | Quem usa/possui | Típico |
|---|---|---|
| Pública | O provedor é dono de toda a infraestrutura; qualquer cliente pode usar | Empresas, órgãos de governo, universidades |
| Privada | Uma única organização é dona, responsável e usuária | Aproveitar infraestrutura legada, conformidade; softwares como OpenStack e Apache CloudStack montam uma nuvem privada |
| Comunitária | Grupo de entidades com interesses comuns | Federação de nuvens privadas de instituições parceiras |
| Híbrida | Combinação de dois ou mais tipos | Parte on-premises, parte no provedor; expansão sob demanda |
Região e zona de disponibilidade¶
Os provedores mantêm datacenters espalhados pelo mundo e ligados por uma malha de links próprios, sem passar pela internet pública.
Definição: região e zona de disponibilidade (AZ)
Região é a presença do provedor em uma localidade (por exemplo, "São Paulo" ou "Santiago"). Zona de disponibilidade (AZ) é um agrupamento de datacenters dentro da região, com energia, refrigeração, segurança física e links redundantes e de baixa latência entre si. Distribuir a aplicação em várias AZs (Multi-AZ) elimina pontos únicos de falha — mas multiplica o custo na mesma proporção.
flowchart TB
subgraph R[Região: São Paulo]
AZ1[AZ 1<br/>datacenters] --- AZ2[AZ 2<br/>datacenters] --- AZ3[AZ 3<br/>datacenters]
end
R <-->|backbone do provedor| R2[Região vizinha]
U[Usuário] -->|menor latência| R
Fatores para escolher a região:
- Latência: quanto mais perto do usuário, melhor a experiência.
- Conformidade: certas organizações (como órgãos federais brasileiros) só podem usar provedores com infraestrutura e representação oficial no país, por soberania de dados e legislação.
- Custo: o mesmo serviço pode custar muito mais numa região (por tributos) do que em outra próxima.
- Disponibilidade de serviços: nem todo serviço novo chega a todas as regiões ao mesmo tempo.
Modelos de contratação de nuvem¶
Contratar um serviço de nuvem não é uma decisão de "tudo ou nada" — existem níveis diferentes de quanto da infraestrutura o provedor assume, e quanto fica sob responsabilidade de quem contrata.
| Modelo | Sigla | O provedor de nuvem entrega |
|---|---|---|
| On-Premises | On Prem | Nada — a empresa monta e mantém sua própria infraestrutura interna, sem contratar fornecedor de nuvem nenhum. |
| Infrastructure as a Service | IaaS | A máquina (servidor virtual) — a conexão e tudo que roda nela é responsabilidade de quem contrata. |
| Platform as a Service | PaaS | Uma plataforma de desenvolvimento pronta, abstraindo completamente o conceito de "máquina" — quem contrata só entrega o código, a plataforma cuida do resto (deploy, escalonamento, ...). |
| Software as a Service | SaaS | Uma aplicação completa e pronta para uso — a única personalização possível é configuração da própria aplicação, não do código por trás dela. |
Definição: Quanto mais alto o nível, menos controle (e menos responsabilidade)
A progressão On-Prem → IaaS → PaaS → SaaS troca controle por conveniência: On-Prem dá controle total (e exige cuidar de tudo, do hardware para cima); SaaS não exige cuidar de nada de infraestrutura, mas também não permite customizar nada além do que a aplicação já oferece pronta. A escolha depende do quanto a equipe precisa (ou quer) controlar cada camada.
O modelo PaaS foi pioneiro por provedores como o Heroku, antes mesmo de gigantes como Amazon ou Google consolidarem suas próprias ofertas de nuvem — um lembrete de que boa parte dos padrões usados hoje em plataformas cloud native não nasceu nas maiores empresas do setor.
Modelo de responsabilidade compartilhada¶
Em nuvem pública, a gestão é dividida entre provedor e cliente, e a divisão muda conforme o modelo de serviço:
| Camada | On-premises | IaaS | PaaS | SaaS |
|---|---|---|---|---|
| Hardware, virtualização, datacenter | Cliente | Provedor | Provedor | Provedor |
| Sistema operacional, patches | Cliente | Cliente | Provedor | Provedor |
| Plataforma/runtime, banco de dados | Cliente | Cliente | Provedor | Provedor |
| Aplicação e código | Cliente | Cliente | Cliente | Provedor |
| Dados, identidades e acessos | Cliente | Cliente | Cliente | Cliente |
A conformidade que o provedor tem (ISO 27001, PCI DSS etc.) vale só para as camadas dele. Tudo acima — dados, acessos, configuração, segurança da aplicação — continua sendo do cliente.
Duas formas de migrar para a nuvem, com impactos diferentes:
- Lift and shift (rehosting): levar a aplicação como está, sem mudar arquitetura. Rápido e simples, mas aproveita pouco os recursos da nuvem e mantém a equipe responsável por quase tudo acima da virtualização.
- Cloud native: aplicações desenhadas para a nuvem (microsserviços, contêineres, serviços gerenciados, elasticidade). Dão mais retorno, mas exigem redesenho.
Quanto custa: precificação¶
Todo provedor oferece uma calculadora de preços (pricing calculator) para simular o custo antes de contratar. Aprender a usá-la é obrigação de quem projeta nuvem: dá para comparar regiões, modalidades de pagamento e até provedores (estratégia multicloud, que também pode buscar alta disponibilidade, recuperação de desastres e redução de lock-in).
| Modalidade | Como funciona | Quando usar |
|---|---|---|
| Pay-per-use (sob demanda) | Paga por hora/segundo, preço de tabela, sem compromisso | Cargas imprevisíveis, provas de conceito |
| Instância reservada / plano de economia | Compromisso de 1 a 3 anos em troca de desconto (frequentemente acima de 50%) | Carga estável e previsível, depois de validada |
| Spot / preemptível (complemento) | Capacidade ociosa com grande desconto, mas que pode ser retomada | Tarefas tolerantes a interrupção (lotes, processamento) |
Pontos de atenção:
- O custo de uma máquina é a soma dos serviços básicos: computação + disco + (se houver) IP público e tráfego. Um recurso opcional como o IP elástico pode multiplicar o valor mensal de uma instância pequena.
- A mesma instância custa mais ou menos conforme a região; às vezes vale usar uma região vizinha mais barata, se não houver exigência legal de ficar no país e depois de medir a latência (benchmark).
- Replicar em várias AZs ou regiões aumenta o custo na mesma proporção.
- Revisitar as instâncias periodicamente (excelência operacional e otimização de custos) e automatizar essa verificação conforme a infraestrutura cresce — prática hoje chamada de FinOps (veja SRE).
Identidade e acesso (IAM)¶
O primeiro passo é criar uma conta no provedor; ela é o "guarda-chuva" de todos os recursos. O usuário inicial, o usuário root, tem poder irrestrito.
Definição: autenticação, autorização e auditoria
Autenticação: provar quem você é (usuário e senha, MFA, chave, biometria). Autorização: o que você pode fazer depois de autenticado, definido por políticas. Auditoria: registro de quem fez o quê, para investigar incidentes.
Definição: IAM e princípio do privilégio mínimo
IAM (Identity and Access Management) é o serviço que cria usuários, grupos e políticas de permissão. Privilégio mínimo: conceder só as permissões estritamente necessárias para a tarefa.
Boas práticas, em ordem:
- Proteger o root (senha forte + MFA) e usá-lo só para ações pontuais (cobrança, fechamento da conta); o dia a dia é feito por outro usuário.
- Criar um usuário administrador e passar a usar o login de usuário IAM (conta + usuário + senha).
- Agrupar usuários por função (infraestrutura, desenvolvimento, auditoria) e atribuir políticas ao grupo, não ao usuário individual — fica mais simples e menos sujeito a erros que quebram o privilégio mínimo.
- Escolher políticas pré-definidas e granulares (por exemplo, "acesso total só ao serviço de máquinas virtuais" em vez de acesso total a tudo) e definir o escopo (projeto, região).
- Distinguir o tipo de acesso: console (pessoas) x programático (scripts e aplicações via API, CLI ou SDK, com chaves de acesso).
- Dar acesso temporário a quem não é do quadro (auditores, consultores).
- Usar nomes significativos e tags (rótulos chave-valor) em todos os recursos, para filtrar e operar em lote.
Computação¶
Qualquer provedor oferece três famílias de serviços de computação.
Máquinas virtuais (virtualização)¶
São a porta de entrada: servidores virtuais sob demanda. Para criar uma instância, o assistente pede:
| Parâmetro | Observação |
|---|---|
| Região e AZ | Considerar custo, latência e conformidade; Multi-AZ para alta disponibilidade |
| Modalidade de pagamento | Sob demanda para validar; reservada depois |
| Tipo de instância | Perfis por uso (propósito geral, otimizada para CPU, memória, GPU/IA, rede) com vCPUs e RAM definidos |
| Imagem | Sistema operacional pronto, mantido pelo provedor, ou imagem própria customizada |
| Disco | Tipo (SSD/HD) e IOPS compatíveis com a carga |
| Rede | VPC, sub-rede, grupo de segurança (portas liberadas) e IP elástico se necessário |
| Acesso remoto | Par de chaves (não senha) |
| Nome, tags, acesso temporário | Organização e governança |
Definição: snapshot e imagem
Snapshot: "fotografia" de um volume em um instante. Imagem: snapshot de um sistema operacional homologado, restaurável como disco de boot — é por isso que uma máquina fica pronta em minutos, sem instalar o sistema do zero. O cliente pode criar imagens derivadas das públicas, com as customizações que quiser.
Sobre o acesso remoto: com senha, qualquer um que descubra o endereço pode tentar força bruta, especialmente contra o usuário root, cujo nome é público. Por isso o padrão dos provedores é chave SSH (par chave pública/privada) com login por senha desabilitado. Quando senha for inevitável, exija MFA.
Contêineres¶
Contêineres e microsserviços combinam com nuvem (veja Containers e Docker e Microsserviços): ambientes reprodutíveis, início em segundos (um contêiner sobe na velocidade de um processo; uma VM precisa iniciar um sistema operacional inteiro) e escalabilidade rápida. Em produção é preciso orquestrador, e a grande vantagem da nuvem é oferecer Kubernetes gerenciado: o provedor opera o cluster, e a aplicação ganha balanceamento, elasticidade e alta disponibilidade nativos. Complementam o serviço um registry privado de imagens (baixa latência, permissões e tráfego dentro do provedor), integração com pipelines de CI/CD (CI/CD) e a possibilidade de nuvem híbrida, com nós do mesmo cluster no provedor e no datacenter próprio.
Computação orientada a eventos (serverless)¶
Em serverless a pessoa não provisiona nem gerencia servidor: uma função é executada quando um evento acontece, e o provedor cuida de disponibilidade e escala. Exemplo clássico: ao subir uma foto em um bucket de armazenamento, o evento dispara uma função que gera miniaturas — sem nenhuma máquina ligada esperando. Não serve para qualquer aplicação (execuções de longa duração, controle fino do ambiente), mas é ótimo para processamentos pontuais disparados por eventos (veja Arquitetura Orientada a Eventos).
Armazenamento¶
Antes de escolher, descubra quais dados vão para a nuvem e como o uso muda no tempo: no início são consultados muito (dados "quentes"), depois ficam em repouso, depois só precisam ser arquivados por conformidade e, por fim, excluídos conforme a política de segurança da informação. Dois números guiam o custo: quantos GB armazenar e quantos GB saem (tráfego de saída é cobrado; o de entrada, em geral, não).
| Tipo | Como é acessado | Características | Uso típico |
|---|---|---|---|
| Blocos | Volume anexado a uma instância, como um disco | Alto desempenho, escolha entre HD/SSD e IOPS, redimensionável (e o sistema de arquivos precisa ser estendido dentro do SO), criptografia, backup e snapshot | Disco de sistema, banco de dados |
| Arquivos | Sistema de arquivos de rede, montado por várias instâncias ao mesmo tempo (NFS/SMB) | Compartilhamento, redimensionamento sem parada | Conteúdo estático para vários servidores web, diretórios compartilhados |
| Objetos | API HTTP; dados em buckets (repositórios com nome único) | Capacidade virtualmente ilimitada, gerenciado pelo provedor, versionamento, classes de armazenamento, site estático | Backups, arquivos de mídia, data lake, dados para IA |
Definição: bucket e classes de armazenamento
Bucket é o contêiner de objetos no armazenamento de objetos; o nome é único e costuma seguir um domínio DNS. Classes de armazenamento são perfis de custo/desempenho: padrão (acesso frequente), acesso infrequente (armazenamento mais barato, leitura cobrada) e arquivo/archive (muito barato, acesso lento e raro, ideal para backup de longo prazo). Regras de ciclo de vida movem objetos entre classes automaticamente.
Snapshot x backup: o backup mantém cópias recuperáveis dos arquivos (totais ou incrementais) em repositório confiável; o snapshot é uma imagem completa do volume num instante, tipicamente tirada antes de uma operação arriscada para poder voltar atrás. Um não substitui o outro (para estratégias de backup de banco, veja Administração de banco).
Para volumes enormes (de dezenas de TB a petabytes), a transferência pela internet é inviável; os provedores oferecem migração em massa por dispositivos físicos enviados ao cliente e devolvidos com os dados. Tenha em mente também que sair do provedor custa tráfego de saída — uma das fontes de lock-in (seção final).
Rede¶
Planeje a topologia de rede antes de criar recursos — como em qualquer datacenter.
Definição: VPC e sub-rede
VPC (Virtual Private Cloud, chamada VNet na Azure e VCN na Oracle) é uma rede privada
virtual isolada dentro do provedor, com um espaço de endereços privados definido pelo cliente
(bloco CIDR, como 10.0.0.0/16). Esse bloco é dividido em sub-redes, cada uma com tabela de
roteamento e ao menos uma rota (a rota padrão, 0.0.0.0/0). Há uma VPC padrão por região; o cliente
pode criar outras para isolar projetos.
Cuidados práticos: faixas privadas padrão são 10.0.0.0/8, 172.16.0.0/12 e 192.168.0.0/16; na
maioria dos provedores a VPC é no máximo /16; as faixas não podem se sobrepor se for conectar VPCs ou
redes locais; e existem cotas (por exemplo, número de VPCs por conta). Veja os fundamentos em
Redes.
Por padrão, uma VPC não conversa com a internet nem com outras VPCs. Os serviços de conectividade são:
| Serviço | Para que serve |
|---|---|
| Internet Gateway | Acesso à internet nos dois sentidos para sub-redes públicas (rota 0.0.0.0/0 apontando para ele) |
| NAT Gateway | Acesso à internet só de saída para recursos privados (baixar patches), compartilhando um IP público |
| IP elástico (EIP) | IP público fixo, que pode ser movido entre instâncias. O IP público dinâmico muda quando a instância é parada; reiniciar não muda |
| IP virtual | IP de serviço compartilhado por duas instâncias (principal e standby) para failover sem ter dois servidores ativos o tempo todo |
| VPN (host-to-site, site-to-site) | Túnel criptografado pela internet entre a nuvem e o notebook/ datacenter do cliente; base da nuvem híbrida; bom para testes |
| Conexão dedicada (Direct Connect) | Fibra dedicada ao provedor, com alta banda e baixa latência; recomendada para uso diário em nuvem híbrida (depende de parceiros na região) |
| VPC Peering | Liga duas VPCs para que se comuniquem de forma privada |
flowchart LR
I((Internet)) --> IGW[Internet Gateway]
subgraph VPC[VPC 10.0.0.0/16]
subgraph PUB[Sub-rede pública]
WEB[Servidor web<br/>IP elástico]
end
subgraph PRV[Sub-rede privada]
APP[Aplicação]
DB[(Banco de dados)]
end
end
IGW <--> WEB
WEB --> APP --> DB
APP -->|somente saída| NAT[NAT Gateway] --> I
VPC <-->|VPN / conexão dedicada| ONP[Datacenter próprio]
Monitoração e auditoria¶
Em nuvem, a monitoração é um serviço integrado ao restante (complementando o que está em SRE):
- Infraestrutura: o provedor coleta automaticamente métricas básicas das instâncias (CPU, rede, disco); métricas do sistema operacional (memória, processos) exigem um agente instalado — muitas imagens já o trazem. Defina quais métricas observar e quais faixas são críticas.
- Alarmes: gatilhos disparados por uma condição que persiste por um tempo mínimo (por exemplo, disco com 50% usado → avisar; CPU acima de 60% por 5 minutos → acionar ação). Esperar a persistência evita reagir a um pico isolado. O alarme pode notificar pessoas ou acionar o escalonamento automático.
- Logs de serviços: com vários servidores, os logs ficam espalhados; serviços de log centralizado coletam, indexam, permitem busca e geram alarmes por palavra-chave.
- Auditoria de usuários: como cada ação no console ou na API é uma chamada autenticada, o provedor registra quem fez, o quê, quando e de onde. Isso garante o não repúdio (a pessoa não pode negar que executou a ação) e permite investigar incidentes.
Serviços gerenciados¶
Quanto mais o provedor assume, menor o custo operacional — equipes de infraestrutura, banco de dados e segurança continuam necessárias em IaaS/lift and shift, o que pode inviabilizar uma startup. Nos serviços totalmente gerenciados (PaaS e SaaS), o cliente cuida só das camadas de cima.
O exemplo canônico é o banco de dados relacional gerenciado (RDS, Cloud SQL, Azure SQL…). Em vez de instalar o SGBD numa VM e cuidar de logs, alta disponibilidade, backup, restauração e escala, o cliente escolhe o engine (MySQL, PostgreSQL, MariaDB, SQL Server) e recebe:
- Isolamento em sub-redes privadas com grupos de segurança restritos;
- Backups automáticos diários e manuais, com retenção configurável (de dias a cerca de dois anos), guardados em armazenamento de objetos; restauração para um instante dentro do período, para a instância toda ou só tabelas;
- Alta disponibilidade: uma réplica standby recebe cada escrita de forma síncrona; se a principal falha, o IP de serviço passa para a réplica automaticamente (verificação de saúde periódica), sem a aplicação trocar o endereço;
- Réplicas de leitura (read replicas) para aliviar o banco quando há muita consulta, com um proxy que envia escritas ao cluster principal e leituras às réplicas;
- Ferramentas de migração de bancos on-premises para a nuvem.
Existem equivalentes para bancos não relacionais (DynamoDB, Cosmos DB, Bigtable…; veja NoSQL). O custo disso é maior lock-in (próxima seção).
Segurança e conformidade¶
Não existe "bala de prata": segurança em nuvem é uma soma de camadas, com responsabilidade compartilhada e normas como HIPAA (saúde), PCI DSS (cartões) e ISO 27001 (gestão de segurança da informação).
Definição: tríade CID (CIA)
Confidencialidade (só quem deve acessa a informação), Integridade (a informação não é alterada indevidamente) e Disponibilidade (o recurso está acessível quando necessário). Toda ferramenta de segurança atende a um ou mais desses princípios. (Mais em Segurança.)
Camadas de proteção de rede:
| Camada | Escopo | Comportamento |
|---|---|---|
| VPC | Rede inteira | Isolamento lógico do restante do mundo |
| Grupo de segurança | Instância | Política fechada: nada entra sem regra permitindo (origem, protocolo, porta). Stateful (a resposta de uma conexão permitida volta sozinha) |
| ACL de rede | Sub-rede | Filtra o tráfego de todas as instâncias da sub-rede |
As camadas se somam. Para acesso remoto, prefira chaves a senhas e ative MFA.
Alta disponibilidade e escalabilidade:
- Redundância torna o sistema resiliente a falhas, não infalível — é preciso prever a recuperação.
- Duas estratégias: réplica ociosa usada só na falha (standby, mais barata; típica de banco com replicação síncrona e IP virtual com protocolos como o CARP) ou cluster ativo com balanceador de carga distribuindo requisições entre nós saudáveis.
- Escala vertical (trocar CPU/RAM por maiores, com parada e limite físico) x escala horizontal (adicionar réplicas idênticas): a nuvem prioriza a segunda, a elasticidade.
- Auto Scaling: o monitoramento dispara regras como "CPU média acima de 60% por X minutos → adicionar nó" e "abaixo de Y → remover nó", mantendo o número ideal de instâncias e o custo proporcional ao uso.
flowchart LR
U[Usuários] --> LB[Balanceador de carga]
LB --> N1[Nó 1]
LB --> N2[Nó 2]
LB --> N3[Nó N]
M[Monitoração<br/>CPU média] -. alarme .-> AS[Auto Scaling]
AS -. adiciona / remove .-> N3
Criptografia e chaves: proteja dados em trânsito (TLS/VPN) e em repouso (discos, buckets, backups). Um serviço de gerência de chaves (KMS) cria e guarda chaves; o cliente pode gerenciar as próprias chaves ou delegá-las ao provedor — escolha que pode esbarrar em exigências de conformidade. (Teoria de criptografia em Segurança.)
Appliances e serviços de segurança do provedor (muitos vendidos num marketplace, permitindo reaproveitar soluções que a equipe já conhece):
- WAF (Web Application Firewall): inspeciona tráfego HTTP/HTTPS e bloqueia os ataques mais comuns do ranking OWASP (injeção, XSS), mesmo se a aplicação ainda tiver falhas.
- Segurança de host: agente instalado no servidor que detecta comportamento suspeito e vulnerabilidades, com alarmes.
- Anti-DDoS: absorve ataques de negação de serviço distribuídos; aumentar a infraestrutura sob ataque só geraria custo sem atender usuários reais.
Equivalências entre provedores¶
Os conceitos se repetem com nomes diferentes. Os principais:
| Categoria | AWS | Azure | Google Cloud | Oracle (OCI) | Huawei Cloud | Alibaba Cloud |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Máquina virtual | EC2 | Virtual Machines | Compute Engine | Compute | ECS | ECS |
| Armazenamento em blocos | EBS | Managed Disks | Persistent Disk | Block Volume | EVS | Block Storage |
| Armazenamento de arquivos | EFS | Azure Files | Filestore | File Storage | SFS | NAS |
| Armazenamento de objetos | S3 | Blob Storage | Cloud Storage | Object Storage | OBS | OSS |
| Rede privada | VPC | Virtual Network | VPC | VCN | VPC | VPC |
| Monitoramento | CloudWatch | Azure Monitor | Cloud Monitoring | Monitoring | Cloud Eye | Cloud Monitor |
| Auditoria de usuários | CloudTrail | Activity Log | Cloud Audit Logs | Audit | CTS | ActionTrail |
| Banco relacional gerenciado | RDS, Aurora | Azure SQL | Cloud SQL | Autonomous Database | RDS, GaussDB | ApsaraDB RDS, PolarDB |
| Banco NoSQL gerenciado | DynamoDB | Cosmos DB | Bigtable | NoSQL Database | Document Database Service | ApsaraDB |
| Função serverless (complemento) | Lambda | Functions | Cloud Functions | Functions | FunctionGraph | Function Compute |
| Kubernetes gerenciado (complemento) | EKS | AKS | GKE | OKE | CCE | ACK |
Lock-in e building blocks¶
Ao escolher um provedor, avalie o lock-in: o quanto a aplicação e o negócio dependem dele. Pesam o volume de dados (difícil e caro de transferir; muitos provedores não cobram a entrada, mas cobram a saída de dados e a banda) e o código a reescrever para trocar serviços gerenciados (filas, caches, bancos proprietários). Para reduzir o risco, desenhe a arquitetura com building blocks comuns — máquinas virtuais, balanceadores de carga, volumes de armazenamento e imagens — que têm equivalentes em todos os provedores (por exemplo, o balanceador chama-se ELB na AWS e Traffic Manager no Azure), e mantenha um plano do pior caso (migrar para outro provedor ou para infraestrutura própria). Detalhes, deploy blue/green e infraestrutura como código em CI/CD.